Não me acostumo
com a crise
com a crase
com as cruzes
não me acostumo
com a indiferença
com a descrença
com o fanatismo
com a violência
não me acostumo
com os horários
com os calendários
com os contemplários
com os que pensam
em nos fazer de otários
não me acostumo
com a moda
com a balança
com a vingança
com a discrepância
com a vida sendo coadjuvante
não me acostumo com
a ira dos sabetudos
com a cólera dos assoberbados
com a falta de tudo que é imprescindível
com a falta de dinheiro
com a falta de comida
com a falta de trabalho
com a falta de justiça
com a fala dos barbados
com o silêncio dos oprimidos
com a droga que corrói a humanidade
que não tem fim
nem tem sanidade
não me acostumo
a pensar que não tem jeito
nem em desajeitar o que está perfeito
não me acostumo a deixar de ter
esperança
mesmo quando não me acostumo
a chorar desesperadamente
por não me acostumar
a não me acostumar.
Rosângela de Carvalho II
29 Abril 2015

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